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Entevista - Eliana de Agostini Rolim
 

Cumplicidade, Criatividade e Determinação: ingredientes de um Trabalho de Orientação Profissional.

Eliana de Agostini Rolim. Psicóloga Clínica e Especialista em Orientação Profissional. Trabalha com adolescentes há 15 anos na área escolar. Atualmente é professora da Disciplina Ética e Cidadania com ênfase em Orientação Profissional e Empreendedorismo, no Colégio Santa Isabel (São Paulo). Segundo ela própria, sua maior conquista é poder participar da grande aventura humana: a formação de pensadores que serão autores da sua própria história.     

Orientador: Como você percebe o jovem, hoje em dia, no que se refere ao amadurecimento quanto às escolhas profissionais?
EA: Para efetivar um trabalho de Orientação Profissional é preciso entender bem quem é o adolescente de hoje e as diferenças que separam esta geração da anterior: a de seus pais. Se analisarmos o adolescente das décadas passadas, encontraremos um adolescente que contestava o modelo da sociedade, porque havia uma enorme diversidade cultural, social e política, que caracterizava até uma alternativa, mesmo que utópica. Hoje, o adolescente tem muito mais a ver com as idéias de consumo do que com o modo de viver. A era do “Eu quero agora, sem esforço algum” é contagiante, porém percebo que isso só leva a um caminho de muito mais angústia e incertezas. A idéia de fazer escolhas na vida envolve uma relação de perdas e ganhos, fazer escolhas implica em abrir mão de todas as possibilidades em prol de apenas uma. Estamos enfrentando uma geração, que na sua grande maioria, não quer sair de um adormecimento, sem perspectivas não quer sentir-se responsável pelas próprias escolhas, sejam essas de qualquer ordem. Os pais muitas vezes, oferecem muito, até para suprir a ausência e cobram pouco. Jovens que não aceitam correr riscos de errar e assim recomeçar. Amadurecer é uma decisão... Eis aí um bom desafio para o nosso trabalho.

Orientador: Em seu trabalho, que orientações você procura passar para um jovem em processo de escolha de carreira?
EA: Acredito que o trabalho de orientação profissional deve ter como eixos norteadores duas etapas básicas: O autoconhecimento e a busca de informações sobre as possibilidades futuras. É importante promover vivências interativas e desafiadoras que possibilitem ao jovem se conhecer, saber do que gosta,  identificar suas habilidades, seus desejos, interesses, assim elaborar que tipo de vida quer ter. É fundamental que o jovem comece a mapear as suas habilidades e associá-las à pratica de algumas profissões de seu interesse, projetando-se em busca da felicidade pessoal e realização profissional. Percebo que, quanto mais cedo esse processo acontecer, maiores são as chances de escolhas conscientes e maduras. Considero como mola propulsora destes dois eixos, o estímulo e a motivação que o adolescente precisa receber para pesquisar e se informar das diferentes profissões do mercado de trabalho. Na minha prática, percebo que a motivação está muito ligada a tirar o adolescente da zona de conforto, daquele lugar que nada acontece e nada se decide, fazendo-o perceber que é preciso transformar sonhos em realidade, potencial criador e práticas construtivas.

Orientador: Quando a escola despertou para a necessidade de desenvolver o trabalho de orientação profissional? Que ações junto aos jovens são realizadas em sua escola sobre escolha de profissão?
EA: Em 2004, iniciei meu trabalho no colégio Santa Isabel com alunos da 5ª a 8ª Série do Ensino Fundamental II. O colégio procurava uma metodologia para direcionar efetivamente o trabalho de Orientação Profissional. Minha atuação até então, consistia de atividades preparadas de textos jornalísticos, atividades de autoconhecimento e dinâmicas de grupo enfatizando diversos aspectos do processo da profissão. Comecei a pesquisar em sites, livros e cursos que pudessem atender a todas as questões dessa envolvente caminhada que é a Escolha Profissional. Foi nesse período que me deparei encontrei com os pressupostos e aplicabilidade do Método de Orientação para Escolha Profissional e Empregabilidade e Empreendedorismo (OPEE). A aceitação e a receptividade do material e da metodologia foram imediatas. Elas foram de encontro à proposta pedagógica do colégio de buscar o diálogo entre a tradição e a inovação dentro de uma construção interacionista, possibilitando ao educando o desenvolvimento das competências e habilidades vitais contemporâneas, resgatando valores humanos universais para o efetivo exercício da cidadania, assim como contextualizar a meta maior da educação em busca da autonomia. Atualmente, a cadeira de Ética e Cidadania (com ênfase em Orientação Profissional e Empreendedorismo) faz parte do componente curricular, com uma aula semanal.

Orientador: Quais ações a escola procura realizar junto ás famílias para tornar a escolha profissional dos alunos mais segura? A escola realiza atividades voltadas para os pais no que se refere ao programa de orientação profissional desenvolvido?
EA: A família e a escola estão preocupadas em como direcionar e preparar a geração de jovens, para assumir as inúmeras mudanças do século 21. Muitas perguntas assombram pais e educadores. Quais serão as exigências do mercado de trabalho? Qual o perfil que se espera de uma pessoa bem-sucedida? Como direcionar o aprendizado de um planejamento financeiro para nossos jovens? Para tantos questionamentos, torna-se prioridade a necessidade de estabelecermos uma nova escola e assim, garantir relações familiares efetivas e consistentes.
A participação dos pais na educação escolar constitui um papel fundamental e muitas vezes determinante na fase de transição da vida do adolescente para o início da vida adulta. Estamos nos referindo a uma fase de muitas dúvidas, angústias e indecisões em todos os aspectos da sua vida. Um dos grandes desafios profissionais atualmente é educar na era da informação. Educadores do mundo todo discutem maneiras de despertar no educando o interesse pelas questões escolares numa época de grande sedução virtual. Como competir com a Internet? E os jogos de videogame, sem contar no I-pod e inúmeros recursos dos celulares.
Experiências bem sucedidas em diversos campos têm comprovado que a solução está justamente em estabelecer uma parceria entre escola e família. Assim sendo, acredito na educação a quatro mãos, em que escola e família juntas, somam e agregam seus principais valores e estabelecem uma parceria efetiva que visa atender as necessidades que abarcam não só o aspecto cognitivo, mais o afetivo, físico e também o profissional.

Orientador: Como tem sido a repercussão desse trabalho junto à família?
EA: Constata-se apoio e valorização da família com relação ao trabalho desenvolvido. A conscientização da importância em educar a quatro mãos em atendimento às necessidades de desenvolvimento do Ser – Filho.

Orientador: Em seu trabalho, você acredita em “perfil de sucesso”? O que se procura trabalhar com o jovem neste aspecto?
EA: Sim, acredito. Trabalho com os alunos em diversos espaços disponibilizados pelo colégio. As atividades e as dinâmicas de grupo estão sempre direcionadas desenvolvendo todo seu potencial humano, tanto para tomada de decisão, como para lidar com suas escolhas. A fórmula do sucesso está no preparo + oportunidades. Dedicação, persistência, estudo, motivação, determinação, fé, ética e entusiasmo são chaves imprescindíveis para obter sucesso e realização.

Orientador: Como as novas exigências do mercado de trabalho são apresentadas aos jovens? Como os novos nichos de mercado são apresentados para eles?
EA: Procuro apresentar as exigências do mercado de trabalho, acompanhando os trabalhos interdisciplinares que realizamos no colégio. O trabalho de Orientação Profissional , assim como os conteúdos e temas abordados, são socializados com a equipe de professores. Diversos recursos são utilizados para fazer a leitura da realidade sócio-econômica do país.  A utilização de artigos de revistas e jornais aprimoram todo o trabalho de pesquisa, fazendo assim a ligação com as diversas conjecturas, exemplo disso acontece com o relato de jovens empresários de sucesso e o fracasso de grandes empresários. Sempre solicito que os alunos formem grupos de interesse para pesquisarem sobre os novos nichos do mercado. Como a temática já está sendo explorada em sala de aula, a apresentação dos trabalhos e exposição das conclusões fica excelente. Este assunto já foi escolhido por um grupo de alunos para a realização de uma monografia.

Orientador: Quais ações são desenvolvidas na escola para que o jovem mantenha-se informado e integrado quanto aos seus projetos de vida?
EA: O método que o professor Leo Fraiman elaborou, mais todo o seu material de apoio, compõe um conteúdo atualizado, dinâmico e lúdico. As atividades sugeridas vão traçando um esboço de uma construção do Projeto de Vida de cada adolescente. No ano passado, realizamos a I Feira Solidária Pequeno Empreendedor, um projeto que envolveu todos os componentes curriculares, objetivando despertar e desenvolvendo as habilidades que possam garantir, futuramente o planejamento financeiro e sucesso pessoal e profissional. Desenvolvemos o Projeto Social Solidário: Adote uma família, com o propósito de reforçar os valores humanos e envolver os alunos na cooperação de arrecadação de alimentos para famílias carentes. A Olimpíada Interna BIQUIMAFI, que têm como principais objetivos o despertar para as habilidades naturais do educando, promover a interação do trabalho em equipe, estimular o desenvolvimento dos talentos individuais. O colégio teve a iniciativa de construir o Criador Conservacionista da Fauna Silvestre Nativa, único autorizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente dos Recursos Naturais Renováveis, que é um espaço que compõe 103 aves portadoras de deficiências físicas, devido a maus tratos quanto ao comércio ilegal. Utilizamos este espaço para projetos interdisciplinares, onde o educando aprende a lidar com a diferença, o respeito às necessidades especiais de cada indivíduo.

Orientador: Que recado você pode dar para o educador que trabalha com orientação profissional? Em uma frase, o que você diria ao educador que trabalha neste segmento?
EA: É um trabalho desafiante, que requer do profissional atualização contínua e diversificada, com o intuito de acompanhar a realidade dos adolescentes. Nossa tarefa como mediadores é de escuta e aliança incondicional com os educandos, construindo uma base de cumplicidade e acolhimento. Ensinar a ler o mundo transcendendo para desvendar os enigmas que estão implícitos. É fator emergente no âmbito escolar, que envolvem não só o mediador de Orientação Profissional, mas todos os demais envolvidos no processo escolar.

Orientador: Você gostaria de fazer alguma consideração final sobre o tema “Envolvimento da Família na Escolha Profissional”?
EA: Por diversas razões os pais ausentaram-se do lar e da co-responsabilidade em orientar os filhos quanto à escolha profissional, muitas vezes por não conseguirem resolver suas próprias frustrações. Com isso, o jovem está a mercê da mídia eletrônica e dos palpites nas rodas de conversa. O jovem destituído de valores morais, culturais e religiosos vê-se pressionado a escolher uma profissão que possa garantir o seu sustento, esquecendo de valorizar suas habilidades e interesses pessoais. Diante dessa constatação, a escola e os educadores devem assumir o compromisso de informar e formar seres cujas diferenças sejam valorizadas e desenvolvidas.

 
 

 

 
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