Pois é! Praticamente acabou a fase de divulgação das listas dos aprovados nos exames vestibulares deste início de ano e meu filho (ou minha filha) não passou em nenhum deles. E agora? Como agir?
Excluindo aqueles pais que já aceitaram o mau resultado do filho e amorosamente o acolheram e garantiram uma nova chance, vamos falar da situação que é bastante comum entre pais e filhos: a dificuldade de lidar com essa derrota.
A primeira idéia que vem à nossa cabeça de pais é que nosso filho não se esforçou tanto quanto devia. E a partir dessa idéia, uma série de pensamentos negativos toma conta de nós: "ele não estudou nada"; "ele é vagabundo"; "ele não quer nem saber dos estudos"; "ele é irresponsável"; "ele só pensa nas baladas com os amigos"; "ele pensa que a vida é fácil"; "ele pensa que vou sustentá-lo a vida toda"; "ele não estava mesmo preparado; "gastamos tanto dinheiro à toa"; "ele não levou a sério nem o terceiro ano colegial"...
Enfim, estes são só alguns dos pensamentos críticos que formamos sobre nossos filhos, mesmo que, da boca pra fora, a gente resolva "não falar nada" ou fingir que está tudo bem, que vamos dar outra chance.
Mas, no fundo, o que acontece, na verdade, é que nós, pais, ficamos tão ou mais frustrados do que nossos filhos. Porque tínhamos, sim, de alguma forma, criado em nós a expectativa de que eles entrariam na faculdade e nós poderíamos sentir orgulho disto. Tanto no ambiente familiar como nas demonstrações de felicidade pelo sucesso do filho perante nossos amigos e conhecidos.
E aí reside o perigo. Em termos de comportamento, o nosso pode variar bastante.
Algumas premissas:
1. Não vamos pagar mais um ano de cursinho.
2. Vamos fazer um sacrifício para pagar mais um ano de cursinho e nosso filho tem que saber que estamos fazendo um sacrifício.
3. Ele que vá trabalhar se quiser continuar estudando.
4. Não sei mais o que fazer com ele que não dá valor ao que tem.
5. Vamos desistir de investir em nosso filho.
O lado dos nossos filhos
Bom, até agora, o que vimos foi o nosso lado – de pais. Agora vamos ver o lado deles – dos nossos filhos.Será que ele não passou no vestibular porque realmente não estava preparado não só do ponto de vista do conhecimento que seria pedido nas provas, mas também do ponto de vista emocional?
Na maioria das vezes é isso o que acontece: o lado emocional do jovem não está suficientemente equilibrado e, considerando a faixa etária em que se encontra – entre os 16 e 18/19 anos –, são inúmeros os fatores que contribuem para esse desequilíbrio.Vamos considerar alguns deles.
São situações de desconforto, medo, insegurança, baixa auto-estima, sensação de abandono, de rejeição, de nunca ser suficientemente bom.
1. Muitas vezes o jovem não está estimulado a estudar porque não gostava da escola onde fez o colegial, manifestou o desejo de trocá-la por outra e os pais não aceitaram bem a idéia. Então ele tem uma queda em seu rendimento escolar de uma pessoa que não está confortável em seu papel de estudante.
2. Muitas vezes o jovem esta se sentindo pressionado pela expectativa dos pais. E essa pressão causa tanto medo, pavor de decepcionar os pais - que tudo o que ele consegue é ficar paralisado em seu rendimento escolar.
3. Muitas vezes o jovem se sente em situação de abandono porque os pais nunca têm tempo para ele e só sabem cobrar resultados. E ele sente que, se der trabalho (repetir o ano, bagunçar, não estudar, etc) vai conseguir a atenção dos pais. E o seu rendimento escolar vai por água abaixo.
4. Muitas vezes o jovem está contrariado porque a escolha profissional que fez não é a SUA própria escolha, mas sim a dos pais (exemplo típico de quem tem pai médico e quer "deixar" a clínica para o filho). Não há motivação para ele mostrar bom rendimento.
5. Muitas vezes o jovem passa o ano inteiro tentando explicar para os pais que não quer prestar vestibulares imediatamente após sair do colegial e os pais não lhe dão ouvidos. Então, o rendimento escolar cai (porque, talvez, se ele repetir o ano, não será obrigado a seguir o desejo dos pais).
6. Muitas vezes o jovem sente que, por mais esforço que faça, não terá o reconhecimento esperado. Então, o rendimento escolar cai porque é mais fácil enfrentar o discurso negativo que virá dos pais já conhecido do que experimentar um novo sentimento de rejeição.
Isso acontece, principalmente com jovens que tem outros irmãos que, por um motivo ou outro, são mais bem sucedidos.Todos estes fatores contribuem para o mau desempenho na hora das provas. Mas há outros – também de ordem emocional:
1. A concorrência: o número de candidatos por vaga em uma boa faculdade sempre traz a insegurança de que pode haver muito mais gente bem preparada do que o nosso filho.
2. A pressão no cursinho: quanto mais se aproximam as datas dos vestibulares, mais os professores fazem terrorismo em sala de aula a ponto de muitos jovens já quererem garantir vaga no próprio cursinho para o ano seguinte.
3. A pressão velada dos próprios colegas que, aparentemente, sabem muito mais do que ele.
4. Uma decepção amorosa – tanto com relação aos namorados como aos pais, aos irmãos ou aos amigos.
O que fazer?
Enfim, se levarmos em consideração que tudo isso pode deixar nossos filhos em situação de risco emocional, poderemos entender melhor os sentimentos deles e nos colocarmos ao lado deles e não em oposição a eles.
Nossos filhos precisam aprender por meio da própria experiência deles e por seus próprios erros. Mas quanto será que nós, pais, também não cometemos erros enquanto ele se preparava para o vestibular? Então, é hora de acolhê-los, motivá-los a começar de novo e ajudá-los nesse caminho. É hora de exercitar a paciência e contribuir para o amadurecimento do nosso jovem.
Como?
Iniciando um diálogo sem mágoas, rancores, cobranças. Não querendo ter sempre razão. Escutando atentamente o que o filho tem a dizer. Buscando consenso entre os desejos dos pais e dos filhos. Negociando e fixando novos objetivos.
Mas firmemente estabelecendo novas responsabilidades e novas formas de comprometimento com o novo objetivo.
Texto: Lucila Camargo
Fonte: www.vidaexcelente.com.br